08/10/2016 às 16h15m


GRATIDÃO: REFLEXO DE UMA ESPIRITUALIDADE ENCARNADA

Lc 17,11-19


O Evangelho desse domingo fala de uma cura (Lc 17,11-19), ou melhor, de dez curas. Para que haja cura, primeiramente é preciso que tenha havido uma doença. A enfermidade talvez seja uma das experiências mais tristes e dolorosas da vida humana. Ela pode nos levar à morte, mas também pode nos levar à vida, como é o caso relatado neste trecho que Lucas nos escreve.

Sabemos que a doença acontece por causa de nossa limitação corporal e psíquica, incapaz de se refazer indefinidamente. Nesse sentido, "todos somos irmãos na miséria". A doença nos iguala a todas as pessoas deste planeta, independente de classe, credo, religião ou cor. Com isso ela nos dá uma primeira dica de cura: nos aponta para a igualdade fundamental com a qual fomos criados e nos tira a presunção de pensarmos ser melhores do que os outros. Vale ressaltar, com isso, que a luta pela saúde (salus = salvação) – e para que o Governo nos garanta a mesma – deve ser uma bandeira levantada por todos nós.

Voltando ao texto, vemos que a narrativa evidencia quatro elementos:

1.       A situação de enfermidade (no caso a lepra, mas que poderia ser qualquer uma);

2.       O pedido dos dez para que fossem curados;

3.       A Cura realizada através da Palavra (dabar) de Jesus;

4.       A Reação dos dez que se revela de maneira diferente.

O Evangelho parece se deter no quarto elemento, ressaltando o contraste da atitude de um samaritano que volta para agradecer, diferente dos outros nove que seguem seu caminho. Aí parece conter a mensagem evangélica ao nos deparamos com esse texto: o cristão deve ter sempre um coração agradecido. E aqui é preciso fazer uma ressalva: não se trata de um simples "muito obrigado", mas Lucas diz que o agradecimento do leproso, e o nosso, ultrapassa o simples ato de dizer uma palavra em agradecimento a quem nos prestou uma ajuda. Ele se transforma numa atitude cotidiana onde reconhecemos que "tudo é graça".

Agradecer a Deus é como cantar o Veni Creator – hino cristão do século IX –, que de forma poética eleva ao Espírito de Deus essas palavras: "Se temos algum bem, virtude ou dom, não vem de nós, vem do teu favor. Pois que sem ti ninguém, ninguém pode ser bom. Só tu podes criar a vida interior". Ou seja, o coração agradecido ultrapassa de longe meras expressões que saem da nossa boca e atinge em profundidade o coração do ser humano, sendo capaz de criar vida interior. Mais ainda, ter um coração agradecido significa ser portador de uma espiritualidade, que não tem nada a ver com orações simplesmente, mas com atitudes que perpassam as situações, sejam elas de bem estar ou de dificuldades. A gratidão parte da vida interior e se revela nas palavras e nos atos, chegando ao louvor a Deus. "A glória de Deus é que o homem viva"!

Diante disso podemos nos fazer 3 perguntas:

·         O que facilita um coração agradecido? Dentre tantas outras qualidades estão, em primeiro lugar, a humildade que é a consciência das próprias limitações mas, sobretudo, simplicidade e modéstia. Outro facilitador da gratidão é a fina percepção de que tudo é graça.

·         O que dificulta um coração agradecido? O perigo que corremos, acorrentados que estamos ao espírito consumista, é de achar que temos o direito de ter TUDO e TODOS. Nesse sentido, os pais e educadores deste tempo prestam um desserviço à sociedade quando são incapazes de colocar limites nos pedidos dos filhos, fazendo-os pensar que eles podem tudo. A frase característica deste tempo, certamente é a mentirosa afirmação "Querer é poder". Não. Não podemos tudo, mas podemos ser felizes com o que conseguimos através do nosso esforço e da nossa honestidade, auxiliados sempre pela graça de Deus.

·         E por fim podemos nos perguntar: o que brota de um coração agradecido? Um ser humano que sabe de suas reais limitações, mas sabe também que Deus é graça em sua vida é um ser humano generoso, incapaz de ficar com o que tem só pra ele. Será, provavelmente, um homem ou uma mulher capaz de dividir e repartir o que tem com os mais necessitados à sua volta. Assim, ele louva a Deus não só com palavras e orações dentro das igrejas, mas louva a Deus através de seus gestos de generosidade que será, pura e simplesmente, reflexo de sua vida interior, de seu coração grato a Deus.


Autor: Pe. Humberto

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Pe. Humberto

Pe. Humberto Henriques é Missionário do Sagrado Coração e atualmente atua como reitor responsável pela etapa do Postulantado e Pré-Noviciado em Vila Velha-ES

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